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Aku no Hana: as flores do mal

“Sou esfinge sutil no azul a dominar,
Da brancura do cisne e com a neve fria;
Detesto o movimento que estremece a harmonia;
Nunca soube o que é rir, nem sei o que é chorar.”

Trecho do poema La Beauté, de Charles Baudelaire.

O trecho acima pertence a um dos vários poemas do francês Charles Baudelaire, reunidos no livro Les Fleurs du Mal (As Flores do Mal, em português) e é citado no mangá e anime Aku no Hana, cujo título corresponde ao nome do livro do poeta.

Aos 13 anos, o introvertido Kasuga Takao vivencia um forte amor platônico em meio à monotonia de seu dia-a-dia, que se resume a ir à escola e ler livros assiduamente, sendo As Flores do Mal o seu livro favorito. A monotonia de sua vida estava prestes a acabar quando, um dia, retorna à sala de aula para pegar o livro que havia esquecido. Na sala vazia, ao se deparar com a mochila contendo as roupas de ginástica de Saeki Nanako, a garota por quem é apaixonado, Kasuga acaba furtando a mochila num ato impensado, e é flagrado por Nakamura Sawa, outra colega de classe. Nakamura, que é considerada uma menina estranha pelos demais, usa seu conhecimento do furto para chantageá-lo. Assim, Kasuga é obrigado a fazer um “contrato” com a garota em troca de seu silêncio.

aku_no_hana_imagem1 Aku no Hana: as flores do mal

Na ordem: Saeki, Kasuga e Nakamura. Imagens do anime.

Aku no Hana é uma história do tipo coming-of-age, com drama e elementos de romance e suspense psicológico, escrita e ilustrada por Shuuzou Oshimi. O mangá, que originou o anime, foi serializado na revista Bessatsu Shounen Magazine, de 2009 a 2014, totalizando 11 volumes. O anime, de 13 episódios, foi lançado em 2013 e, portanto, finalizado antes da conclusão do mangá, cobrindo o primeiro arco da história, que vai até o capítulo 20.

Les Fleurs du Mal

Antes de adentrar na ligação entre Aku no Hana e a obra de Baudelaire, convém apresentar brevemente este autor cuja obra serviu de título para o mangá e o anime, uma vez que sua vida foi determinante para seu estilo poético. Charles Baudelaire nasceu em Paris em 1821 e levou uma vida boêmia. Em posse de uma boa quantia que recebera de herança, vivia despreocupadamente, se ocupando de lazeres como visitas a galerias de arte e cafés, conhecendo muitas personalidades que o influenciariam, e até experimentando drogas. Chegou a escrever críticas de arte, artigos para jornais e um livro de ficção. Seu livro Les Fleurs du Mal foi lançado um pouco depois, em 1857 e, à época, seis de seus poemas foram censurados por terem sido considerados obscenos.

O título do anime e do mangá, como foi dito, faz referência à sua obra mais famosa. Les Fleurs du Mal contém diversos poemas em que predominam oximoros (junção de dois elementos contraditórios) e evocam sordidez, beleza, sexo e morte, sendo a obra um dos ícones da poesia simbolista. A linguagem de seus poemas é considerada um misto de vulgar e incorreta, que seriam reflexos de sua vida considerada imoral, em que a degradação moral levaria à degradação da linguagem, de acordo com Carol de Dobay Rifelj.

akunohana_book Aku no Hana: as flores do malO porquê da escolha do livro como inspiração talvez se deva aos gostos do próprio Shuuzou Oshimi, que desde cedo era interessado em arte e literatura, lendo principalmente os modernistas. O paralelo da obra de Baudelaire com Aku no Hana pode não ser tão visível, tendo Oshimi se utilizado de uma boa dose de liberdade ao desenvolver a trama e seus personagens. É até possível afirmar que o livro não importa tanto para a história como o título supõe, tirando o fato de ser o livro favorito do protagonista e de ser mencionado em certas passagens. Muito menos se trata de uma adaptação dos poemas do autor francês.

Ainda assim, certas coisas presentes em Aku no Hana têm ligação, ainda que de profundidade questionável, com poemas de Baudelaire reunidos na obra homônima, especialmente o que Oshimi tenta retratar como degradante nas relações entre seus personagens. Se Les Fleurs du Mal pode ser entendida como reflexo da vida imoral do autor francês, ainda que Aku no Hana não seja exatamente um reflexo da vida pessoal de Oshimi, sua história transmite uma idéia de imoralidade para um contexto japonês, numa trama ficcional que não se prende demais à obra que originou o título, mas similarmente perpassada por uma essência subversiva.

Aku no Hana

Graças a um ato impensado, um furto — e aqui está um primeiro desvio no caminho da retidão — a vida de Kasuga muda completamente, em parte pela vergonha e culpa que sente pelo ato, e em boa parte por influência direta de sua colega de classe, Nakamura. Tanto o mangá quanto o anime desenvolvem a história na perspectiva do adolescente Kasuga, mesmo que a força por trás dos eventos mais importantes seja Nakamura.

Kasuga começa a ser chantageado pela colega e é praticamente obrigado a passar por situações das quais teria mantido distância se continuase a levar a vida de antes, a vida que seus pais e a sociedade esperariam que levasse. Essa mudança permite que Kasuga, que sempre se considerara incompreendido, possa se aproximar mais de seus desejos mais íntimos, descobrindo um lado seu que não conhecia, e ao mesmo tempo o adolescente, que até então parecia manter apenas relacionamentos superficiais, se aproxima de duas pessoas em especial: Nakamura e Saeki.

tumblr_monx379MyV1rj52qho1_500 Aku no Hana: as flores do malA primeira representa o caminho do desvio, caminho no qual Kasuga se vê jogado contra sua vontade para logo começar a sentir-se livre do que quer que antes o prendia. Saeki, por sua vez, é a oportunidade de voltar aos trilhos e ao mesmo tempo experimentar efetivamente o primeiro amor. O garoto se vê constantemente tentado pelos dois caminhos, e disso resultam relacionamentos turbulentos. Quem conhece a obra de Baudelaire notará que Aku no Hana não contém toda a carga de turbulência ou degradação que notamos nos poemas do escritor francês, mas é possível estabelecer um paralelo ao levar em consideração o realismo de Aku no Hana considerando as particularidades da cultura japonesa.

No Japão, a transição da infância para a idade adulta, época que chamamos de adolescência (seinenki), não é tão associada às características, muitas vezes negativas, que muitos usam para definir essa época da vida, tida como marcada pela rebelião, independência e confusão em relação à busca por uma identidade. Atualmente, essa visão negativa não é tão predominante como foi no século passado, especialmente entre aqueles que a estudam, mas para muitas pessoas a idéia de adolescência ainda passa essa impressão.

kasuga_akunohana Aku no Hana: as flores do malNa sociedade japonesa, em que predomina um senso de conformidade e harmonia (wa), as atitudes que possuem o efeito contrário são duramente reprovadas, não importando a época da vida, já que desde a infância as crianças são ensinadas a cooperar com o grupo e evitar atitudes consideradas individualistas. Ainda assim, a adolescência no Japão não é livre de adversidades. Sabe-se que o aumento de problemas do sistema educacional do país, como o bullying, por exemplo, coincidem justamente com essa época da vida. Problemas como depressão também se intensificam nessa idade.

Muitas ações de Kasuga e Nakamura seriam consideradas inadequadas e contrárias ao senso de harmonia predominante, e vemos isso nas opiniões vindas de seus colegas, professores e pais. Os dois podem não ser degenerados no sentido atribuído aos temas dos poemas de Baudelaire, ou libertinos ou boêmios como o próprio, mas sem dúvida Aku no Hana apresenta casos de uma juventude deturpada, contendo elementos interessantes da cultura japonesa, como a reprovação de comportamentos desviantes, pressões de grupo e visões sobre intimidade.

“A juventude não foi mais que um temporal,
Aqui e ali por sóis ardentes trespassado;
As chuvas e os trovões causaram dano tal
Que em meu pomar não resta um fruto sazonado.”

Trecho de L’Ennemi, de Charles Baudelaire

aku_no_hana_imagem2a Aku no Hana: as flores do mal

Mangá x Anime

A versão animada gerou muita discussão à época de seu lançamento devido ao estilo de animação, em que foi utilizada a técnica de rotoscopia, que consiste em redesenhar as cenas a partir de uma gravação com atores reais. As feições dos atores foram preservadas na animação, sendo assim, os personagens do anime adquiriram feições com proporções mais realistas que as do mangá, que foi desenhado no estilo mais característico dos quadrinhos japoneses: rosto mais estreito na área do queixo, com olhos grandes e nariz e boca pequenos.

akunohana_manga Aku no Hana: as flores do mal

Imagem do mangá.

O anime foi produzido pelo estúdio Zexcs, e a escolha da rotoscopia veio do diretor, que considerou a história ideal para um live-action, então a técnica utilizada seria a que mais se aproximaria disso. O autor do mangá aprovou a idéia, e os dois estavam cientes de que o estilo escolhido para o anime provavelmente desagradaria alguns fãs, especialmente os mais interessados pelo estilo moe.

De fato, muitos fãs reagiram mal à versão animada de Aku no Hana, por fugir do estilo convencional dos animes e também do traço da versão original, o mangá. Ao meu ver, no entanto, a técnica utilizada foi uma boa escolha para uma história como a de Aku no Hana. O visual diferenciado, além de ser mais realista na aparência, também conferiu aos personagens um movimento corporal mais natural, mais real, como se fossem pessoas de verdade. O único ponto negativo é o frame rate e o detalhamento relativamente simples dos personagens, já que nem sombras foram utilizadas na animação dos mesmos. De qualquer forma, por se tratar de um mangá com trama mais realista, a escolha da rotoscopia e aparência mais realista dos personagens casou bem com a história.

Outra vantagem da versão anime é justamente o fato de ser um anime. Isso porque, diferentemente da experiência da leitura, seja um texto ou HQ, é que a velocidade da leitura num material impresso é controlada pelo leitor. Já um anime, assim como um filme qualquer, tem suas imagens mostradas ao espectador numa velocidade predeterminada, cabendo àquele que assiste aguardar passivamente enquanto a história se passa, cena a cena. Isso impede, portanto, que a história se desenrole de forma acelerada, como poderia ser numa leitura rápida do mangá. Aku no Hana possui vários momentos de tensão, e o anime conseguiu lidar com esses momentos de forma excelente. Isso porque se trata de um anime com andamento lento, criando a expectativa e tensão necessárias em vários momentos. A trilha sonora, ainda que minimalista, soa ideal para o tipo de história, e é reservada para os momentos certos.

Para finalizar as qualidades do anime, Aku no Hana é um belo exemplo de scenery porn. O que muitos parecem não ter reparado por trás dos personagens de estilo realista e simplificado foram justamente os cenários. Um dos mais bonitos que já vi, os cenários são uma mistura de realismo com desenho, mantendo o charme de ambos os estilos. Pessoas que também gostam de apreciar todos os aspectos visuais de uma obra irão se surpreender com a beleza dos cenários de Aku no Hana. Muitos dos locais mostrados no mangá e anime realmente existem, pois a cidade na qual a história se passa é baseada numa pequena cidade na prefeitura de Gunma, onde o autor do mangá nasceu. A forma como a cidade é descrita pelo protagonista e mostrada em certas imagens evoca, mais uma vez, a impressão de decadência, outra semelhança com os temas das poesias de Baudelaire.

aku_no_hana_imagem4 Aku no Hana: as flores do mal

O anime deixou muitas pessoas esperando por uma segunda temporada, que não foi anunciada até o presente momento. Como foi dito, a continuação da história pode ser lida no mangá. Na versão em quadrinhos também vemos as consequências das ações dos jovens na vida de cada um deles. Os episódios do início da adolescência de Kasuga marcam-no profundamente e, mesmo anos depois, ainda o prendem ao passado. Por esse motivo, recomendo àqueles que desejam conhecer a história que não assistam apenas o anime, mas que leiam também o mangá.

Referências:
Charles Baudelaire – Poets.org
Japan Group – Andrews.edu
Japanese Adolescents: self-concept and well being – Saori Nishikawa
Japanese Teenagers – Tripod
Word and Figure: the language of nineteenth-century French poetry – Carol de Dobay Rifelj

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Karina Moreira

Formada em História, é membro do Grupo de Estudos de Histórias em Quadrinhos de Franca (GEHQ). Há anos não consegue viver sem sua dose diária de animes e mangás, o que aumentou seu interesse pela cultura japonesa, e espera conseguir dominar o complexo idioma dos kanji um dia... De vez em quando, gosta de desenhar e passar a madrugada rindo de vídeos de pegadinhas.

2 comments

  • Mary Anne Otaku:

    Excelente texto!!! Quando o anime de Aku no Hana começou, muitos reclamaram da técnica da animação. A crítica era óbvia: “estragaram a garotinha bonitinha que eu adorava do mangá, agora ela tá realista demais, ficou horrível.” Quem não conhecia a obra e começou pelo anime também estranhou. A animação é diferente e “não parece anime.” Resolveram fazer Aku no Hana com rotoscoping, o mesmo tipo de desenho que Richard Linklater usou em filmes como Waking Life e A Scanner Darkly. Uma das muitas críticas sobre o anime começava com a frase “diferente é melhor.” E esse realmente é o caso com Aku no Hana. A resenha também acreditava que o estilo iria agradar fãs de Serial Experiments Lain (um dos meus favoritos) e quem gosta de histórias de ritmo mais lento. Aku no Hana é um anime sobre como coisas podem dar errado tão rápido, principalmente quando você é um adolescente no auge da puberdade. E sim, obviamente tem relação ao livro de poemas homônimo de Baudelaire. A história de Aku no Hana mostra que ele é um anime diferente. O suspense de nunca saber o que Nakamura vai fazer ou querer, a repressão e auto-flagelação (psicológica) que Kasuga se submete, a carência e desespero de Saeki… Tudo isso cria um clima muito tenso e desconfortável. Até o encerramento do anime é bizarríssimo.

    • Karina Moreira
      Karina Moreira:

      Fico feliz por ter gostado do texto, e é muito legal ver mais alguém que também aprovou a adaptação para anime. Realmente, Serial Experiments Lain tem um ritmo bem lento e quem gosta, ou não se importa com esse tipo de andamento, pode acabar gostando de Aku no Hana também, apesar de a temática dos dois ser bem diferente. Com certeza, o suspense em Aku no Hana é muito bom, e essa sensação de tensão e desconforto é algo que gosto bastante nele. Hehe, pois é, o encerramento é bem bizarro mesmo, lembro quando ouvi pela primeira vez e fiquei intrigada. Enfim, muito obrigada pelo comentário 🙂

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