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Crítica: Eu, Daniel Blake (I, Daniel Blake)

daniel_cartaz Crítica: Eu, Daniel Blake (I, Daniel Blake)Eu, Daniel Blake

Direção: Ken Loach

Elenco: Dave Johns , Hayley Squires, Briana Shann , Micky McGregor, Sharon Percy e Dylan McKiernan

Servindo como um documentário para nossa época (como todo bom filme deve ser), este Eu, Daniel Blake, não é somente um reflexo da indiferença, mas um forte exercício social de seres humanos tratados com descaso por um sistema que torna uma simples busca por um emprego, numa jornada de humilhações e desprendimento. Para isso, o diretor Ken Loach mais uma vez é contundente dentro de sua filmografia a exemplificar este mosaico em que o próprio cineasta costuma dizer em suas aparições: ”O Estado cria a ilusão de que, se você é pobre, a culpa é sua”.

Daniel Blake (Johns), depois de perder a esposa, é impedido de trabalhar por problemas cardíacos. Mas ao tentar um recurso para obter o auxílio desemprego, ele enfrente uma saga burocrática sem fim, cujo único objetivo parece ser dificultar, o acesso da população ao benefício. A chamada ”burrocracia” que faz uma série de questionamentos inúteis, como por exemplo, se a pessoa pode andar poucos metros sozinha, se podem levantar os braços ou simplesmente colocar um chapéu (como se a própria presença da pessoa não fosse suficiente) – onde estes questionamentos são feitos por “profissionais de saúde” e não médicos. Ou até mesmo obrigando a participarem de Workshops para aprenderem a fazer currículos e de como você deve procurar emprego para mesmo assim, não conseguindo, dizer de maneira descarada que as pessoas não estão se esforçando (“O máximo não é o bastante”). Funcionários que seguem a lógica do capitalismo dando um tratamento indefensável e se glorificando ao dizer que uma empresa tem apenas 10 segundos para ler seu currículo.

Exemplificando inicialmente este aspecto de maneira simples, mas inteligente, a direção abre o longa apenas com aquela rotina inerente a todos: os irritantes atendimentos telefônicos. Para engrandecer a direção evita personificar essas vozes no início, para quando conferir um rosto a estas pessoas, representadas no atendimento da agência de emprego, o público já está o suficientemente inserido no sentimento de indignação do protagonista e pelo péssimo e desumano atendimento que é submetido.

A construção e arco dramático de Daniel são feitos através de detalhes, como o fato de Daniel passar a vida toda trabalhando de maneira quase artesanal, criando o contraste com a necessidade com a tecnologia e dificuldade de usar um computador e ter que constantemente solicitar ajuda. E contando da ajuda de uma Hayley Squires, que transita de maneira convincente entre a necessidade de se manter como escudo para os filhos e o total desespero por não conseguir ver uma saída imediata, a relação entre Dan e Katie é feita de maneira respeitosa, sem jamais cair em pieguice ou com qualquer interesse que não seja a necessidade de ajudar o próximo diante de um cenário de dificuldade, contra um sistema que não admite lidar com pessoas.daniel_meio Crítica: Eu, Daniel Blake (I, Daniel Blake)

Um sistema que preza pela falta bom senso, não se importando se é mãe com filhos que se atrasa para obter uma ajuda (e consequentemente serem enxotados como animais), onde tudo paira a idealização de uma política de ”limpeza” da capital ao obrigar os mais pobres, negros e imigrantes a saírem dos centros urbanos, como Londres, e os jogando na informalidade e até prostituição – novamente vem à mente a frase do diretor “O Estado cria a ilusão de que, se você é pobre, a culpa é sua”.

Para representar este cenário, nada mais emblemática quanto na cena em que Katie (Squires) recebe auxílio de cesta básica de um centro de distribuição. Uma cena dura, em que somos compelidos a estarmos em seu lugar, que naquele momento se consolida numa personagem que é um misto de frustração, choro e culpa. Principalmente quando a personagem sem qualquer pudor, e evitando olhar nos olhos da atendente, abre uma lata de mantimento por fome e a única coisa que sentimos é um nó na garganta. Uma dor também por ela não ter condições para comprar produtos básicos de higiene, a ponto de obrigá-la a tomar atitudes extremas e não menos dignas.

Assim este belo longa , se torna um cenário social complexo, onde o que está em jogo é mais que um simples emprego, mas a dignidade humana. Pessoas, que aos olhos das autoridades, são vistas como rebeldes criminosos quando extravasam essa pressão, mas que podem também serem vistas como resistentes e até mártires. Completo e relevante a ponto de se tornar uma história identificável em qualquer local do mundo, Eu, Daniel Blake, é capaz de nos remeter a nossa realidade de maneira evocativa. Principalmente quando, após a sessão, palavras de protestos foram ecoadas contra as medidas de austeridade e as panelas que se calaram, depois que este sistema capitaneado por um governo que tomou o poder a força, decidiu que 49 anos de trabalho é suficiente para uma aposentadoria.

Cotação 4/5

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Avaliação
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Rodrigo Rodrigues

Amante inexperiente da sétima arte, crítico por insistência, mas cinéfilo acima de tudo. Descobriu, ainda jovem, certos diretores como Sergio Leone, Billy Wilder, Fellini, Bergman, Antonioni, Scorsese e sua vida nunca mais foi a mesma. Acredita que a empatia, diálogo e o respeito ao próximo é a maior arma contra o fundamentalismo da sociedade conservadora e fundamentalista de hoje.

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