Crítica: A Dama Oculta (The Lady Vanishes)

A Dama Oculta (The Lady Vanishes)

Direção: Alfred Hitchcock

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Elenco: Margaret Lockwood, Michael Redgrave, Cecil Parker, Nauton Wayne, Mary Clare, Phillip Leaver, Catherine Lacey e May Whitty.

Nota 4/5

Penúltimo filme da “fase Inglesa” do diretor (o último foi A Estalagem Maldita, de 1939) e antes de estrear em solo americano com Rebecca (1940), este A Dama Oculta (1938) é citado como sendo com ele que Hitchcock estabeleceu definitivamente seu nome com um contador de histórias.

Apoiada no ótimo roteiro de Sidney Giliat e Frank Launder, e baseada no livro de Ethel Line, a obra é basicamente uma mistura de suspense, aventura e comédia romântica clássica, que mostra como a jovem Iris Henderson (Margaret Lockwood) tem ajuda do então sonhador músico Gilbert Redman (Michael Redgrave) para desvendar um possível desparecimento da senhora Miss Froy (May Whitty) durante uma viagem de trem.

Sempre direcionando o público para onde quer, o diretor se dá ao luxo de usar o primeiro terço do filme apenas para apresentar seus personagens, sem realmente dar a entender para onde o filme pretende ir. Assim, ao chegarmos à viagem de trem em si, somos envolvidos em uma atmosfera de mistério e traições com direito a todas as personagens pitorescas tipicamente saídas, por exemplo, de um livro de Agatha Christie.

Além do casal protagonista e da senhorinha com passado oculto, temos uma dupla de ingleses (Cecil Parker e Nauton Wayne) sem interesse aparentemente nenhum nos acontecimentos; uma freira silenciosa (Catherine Lacey); um gentil médico (Paul Lukas) com seu paciente misterioso; uma baronesa (Mary Clare) e até um mágico (Phillip Leaver).

Obviamente, como o próprio diretor admitiu, o argumento principal envolvendo espionagem é visto com certa desconfiança, uma vez que a informação poderia ser repassada de outra maneira (uma carta, por exemplo) sem necessariamente usar uma pessoa que poderia ser facilmente morta. Contudo, devemos lembrar, por mais frágil seja tal conceito, se o diretor conseguir envolver narrativamente o espectador naquilo durante sua projeção, tudo soará sempre válido; tanto que Hitchcock costumava chamar as pessoas que exigem certa realidade de “amigos verossímeis”. Mas, incongruências a parte, A Dama Oculta soa divertido e jamais abandona o estilo envolvente que caracterizou Hitchcock, principalmente nos detalhes, como por exemplo, quando deixa pistas na tela – em determinada cena temos uma palavra escrita na janela para, posteriormente, ser vista ao fundo da conversa do casal protagonista em outro momento, indicando uma informação importante sobre o desaparecimento da Sra. Froy.

Tecnicamente convincente, Hitchcock abusa da criatividade em sua narrativa; seja tanto ao usar as retroprojeções ao fundo (lembrando que tudo era filmado em estúdio), quanto ao trabalhar a visão do público de maneira simples e econômica. Um desses exemplos ocorre em determinada cena em que os personagens estão prestes a beber uma taça de vinho, que pode estar envenenada, e a câmera se mantém sempre focando a cena através dela, dando entender que há algo de errado (segundo o próprio diretor, foram feitas taças de tamanhos maiores para dar essa perspectiva ao espectador); Também podemos citar como, ao transpor imagens de personagens com o trem em movimento, estas se mostraram eficientes para antecipar a turbulência à que a protagonista seria submetida.

Mas talvez um grande elemento do filme que parece ter passado despercebido para época do lançamento (apesar de não acreditar muito) e que poucas críticas atuais comentam é o fato de que A Dama Oculta, como todo bom filme, seja um retrato da sua época.

Lançado no ano anterior à Segunda Guerra Mundial, a obra acaba sendo uma metáfora política e social – e mesmo que a conotação ideológica ou apartidária seja algo que Hitchcock raramente abordava ou fazia discretamente em sua filmografia, o longa acaba servindo como tal. Até porque, ao se apresentar também como um engenhoso filme de ação em seu terço final, surgem claramente figuras representando o nazismo (já ascendido ao poder) que estão em busca das informações secretas que estão com um dos passageiros; assim quando os protagonistas lutam pelas suas vidas durante o cerco, a união dos personagens de segmentos e nacionalidades distintas é fundamental para saírem daquela situação. Inclusive para exemplificar melhor o perigoso contexto da época, notamos uma interessante cena na qual um dos ingleses – que é juiz – se apresenta como isento e tenta acordar com os algozes algum tipo de trato; obviamente algo inútil em tempos de opressão.

Terminando rapidamente o destino dos cativantes personagens no seu final como era de costume, Hitchcock jamais permite que o cenário subjugue suas intenções iniciais de contador de histórias ao seu bem entender. Portanto, A Dama Oculta surge com um dos melhores filmes do diretor inglês e confirma toda genialidade daquele que estava prestes a alcançar seu ápice.

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Rodrigo Rodrigues

Amante inexperiente da sétima arte, crítico por insistência, mas cinéfilo acima de tudo. Descobriu, nem tão jovem, diretores como Sergio Leone, Billy Wilder, Fellini, Bergman, Antonioni, Scorsese e sua vida nunca mais foi a mesma! Acredita que a empatia, democracia e o respeito ao próximo é a maior arma contra o fundamentalismo da sociedade retrógrada que estamos vivendo.

5 thoughts on “Crítica: A Dama Oculta (The Lady Vanishes)

    1. Tcheller
      bem vindo
      Obrigado pelo comentário. Janela Indiscreta é uma boa lembrança para liderar qualquer ranking do diretor.
      Abraço

    2. Eu coloco Os Pássaros, Intriga Internacional e Janela Indiscreta no meu top3

  1. esse filme ja passou na Cultura e em um Corujao da Globo… hj em dia parece bobinho até, mas pra época era um belo suspense… garimpou um otimo filme, parabens

    1. Seagate
      bem vindo novamente
      O tempo é um senhor da razão para os bons filme. Mas realmente, no caso de A Dama Oculta, o filme ainda é elogiável.

      Abraço

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