Criação: Craig Mazin e Neil Druckmann

Direção dos episódios: Craig Mazin, Neil Druckmann, Peter Hoar, Jeremy Webb, Jasmila Zbanic, Liza Johnson e Ali Abassi

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Elenco: Pedro Pascal, Bella Ramsey, Gabriel Luna, Rutina Wesley, Scott Shepherd e Storm Reid.

The Last of Us talvez tenha sido um das poucas (ou única) história de uma mídia diferente que me deixou ansioso quando foi anunciada sua adaptação para live-action , uma vez que fiquei impressionado com a história e dinâmica do jogo lançado em 2013, mesmo ciente que com linguagem audiovisual (seja cinema ou TV) esses não têm obrigação de fidelidade total, e alterações sempre ocorrem (isso também serve para livros).

Somente durante a quarentena forçada pela epidemia do Covid-19 pude tê-lo à disposição para jogá-lo. Sim, por uma coincidência perturbadora, acabei acessando um jogo que fala de uma epidemia que dizimou praticamente a população do planeta durante… uma pandemia real. Admito que isso não tenha ajudado muito meu psicológico já abalado pelo confinamento e descaso de um governo de morte a que estávamos submetidos, mas acabei insistindo naquela realidade e o poder de controle e sensação lúdica dos games como um “escape” sobre toda a tragédia humanitária e política que assolavam o país – e o mundo, naquela época.

E agora, semanas depois do término da primeira temporada, acredito ainda ser uma boa oportunidade para falar sobre umas das melhores séries do ano. Como não falarei episódio por episódio, a analise será de maneira mais generalizada; o que de certo modo mostra como o seriado foi coeso em sua narrativa.

Quando ouvimos um Never Let Me Down Again, da banda Depeche Mode, ao final do primeiro episódio (When You’re Lost in the Darkness) para o segundo (Infected) temos, em apenas um pequeno trecho, para mim, uma das primeiras grandes marcas de autenticidade dos roteiristas Craig Mazin e Neil Druckmann (esse, o criador do jogo) diante do desafio de quem adapta um material pré-reconhecido. Ou seja, a capacidade de trazer elementos narrativos novos sem perder a essência do original, algo que os fãs mais radicais parecem não entender. E mesmo assim, se há algo que não se pode reclamar de The Last of Us é a falta de fidelidade. Importantes sequências e planos na série são praticamente os mesmos até nos mais simples e não menos tocantes, como por exemplo, a cena de Ellie vendo uma girafa pela primeira vez.

Inclusive, acho muito divertido vendo muito gente – obviamente geração mais nova – descobrindo uma das maiores bandas dos anos 80; um misto de satisfação e choque de realidade sobre o que era novo para mim, agora é envelhecido, como Joel é para Ellie.

Com episódios que se são amálgama entre histórias fechadas, mas também ganchos devido ao road movie da dupla protagonista, The Last of Us foca justamente naquilo que o enredo tem de mais importante: o crescimento e dilemas pessoais de Joel (Pascal) e Ellie (Ramsey) diante de um mundo sem regras morais ou justiça, sendo que a única coisa que ele exige é sobrevivência, custe o que custar. Outra importante decisão da produção foi evitar a todo custo transformar a série em algo genérico como tantas outras do gênero, mesmo que o tema “apocalipse zumbi” seja iminente e crie uma ancora temática. Nesse caso, ao contrário de programas mais famosos, como The Walking Dead, que sucumbiram ao ego de seus criadores e ficaram pobres de ideias e narrativas, aqui jamais temos a sensação que a presença dos infectados em si seja fisicamente necessária, tanto que, tirando o episódio do ataque à torre do relógio (Endure e Survive) em que há um enxame das criaturas, contamos nos dedos quando elas aparecem. E quando usadas elas vêm justamente com uma função específica e rápida (mas não menos importante) para a trama e não apenas para “aparecer por aparecer”.

A jornada de Joel e Ellie obviamente é baseada num relacionamento perdido de pai e filha ou filha e pais, cuja presença inicial de Anna Torv como Tess molda o máximo desse âmbito familiar que aquele mundo permite. Joel é um personagem endurecido pelo mundo ao redor e as perdas do passado, e para ele o tempo se move como uma engrenagem arranhada, como peças antigas sem manutenção de uma máquina sem consciência, esperando apenas ficar sem uma função. São as lembranças que o motivam? Uma vingança devida a sua perda décadas atrás? Pode ser, mas o que garanto que Joel não é, como é dito durante uma passagem, é “uma boa pessoa”.

Ele não hesita em eliminar aqueles que atravessam seu caminho (seja um jovem implorando pela vida ou não), principalmente quando esse caminho possa levar a um mínimo senso de redenção. Ilusória ou não. Pedro Pascal é brilhante ao emitir uma dureza de um homem que perdeu tudo, mas lentamente se rendendo a cada contato de Ellie, antes tratada como uma mercadoria até sua transformação na filha protegida dos males do mundo, como a personificação de uma nova chance dada pela sociedade destruída; assim como ele.

O que nos trás à Bella Ramsey como Ellie. Considerada pouco atraente por não ter o padrão de beleza hollywoodiana (seja lá o que isso for na cabeça dessa gente), a atriz foi uma escolha mais que certeira dos produtores de The Last of Us. Interpretando com naturalidade uma jovem de 14 anos de idade (a atriz na época das filmagens tinha 19), Ramsey é igualmente brilhante ao percorrer os temperamentos efusivos da descoberta de um novo mundo, mas que aos poucos vai cobrando seu preço pelo amadurecimento; um preço tão alto quanto de Joel. Arredia e sarcástica, Ramsey rapidamente convence que sua maturidade é tão natural quanto lutar com adversários mais fortes (sejam eles infectados ou não). Simbólico, portanto, que essa perda de inocência seja vista de maneira impactante no próprio episodio Endure e Survive quando estão na presença dos irmãos Burrell e sua trágica conclusão ou no tocante Left Behind em que a pureza do amor sentido por Ellie é um fardo demasiadamente pesado para ser carregado sem consequências. Ou seja, seria como se aquele lugar dissesse: “Você pode brincar, aproveitar sua juventude, seu amor, mas na próxima esquina eu vou te trazer a realidade”. E fico com uma imensa curiosidade, em uma provável segunda temporada, Ellie estando com a idade mais próxima da atriz.

Todos os personagens que cruzam o caminho de Joel e Ellie morrem e nascem a cada episodio em suas buscas. Como disse anteriormente, o sistema ruiu e a exigência é sobreviver, mas, voltando ao conceito inicial, The Last of Us é sobre o interno influenciado pelo externo, os perigos revelam-se dentro de outros seres humanos, assim como a bondade ou amor, maldade e destruição (esses últimos os mais presentes). Inclusive, méritos para o design de produção da série que permite constantemente o espectador ser inserido naquele universo destruído de cidades antes complexas, hoje se resumindo a prédios escorados em outros com os resquícios da civilização contextualizando as ações internas dos personagens. Pode ser o plano em que Ellie surge em posição fetal cercada de ramificações dos fungos que ela mesma possui e não a atingem, ou quando não, usam-se elementos naturais para representar o caminho de Joel e Ellie, sejam pedras simbolizando algo ainda sendo construído no relacionamento deles ou um riacho congelado contrapondo-se ao fogo do espetacular final do episodio When We are in Need em que sentimos toda fúria da jovem.

Outro grande mérito da série é justamente os realizadores não pouparem ferramentas para atingir o potencial dos subtextos contidos no próprio jogo. Ou seja, subverter a expectativa ou explorar alguns conceitos sexuais e políticos dentro de uma obra baseada em jogos eletrônicos, cuja parte dos integrantes – fãs radicais que adoram dizer que filme tal “estragou a infância dele” ou que não pode misturar política nos filmes – procuram renegar. Assim, o belíssimo episódio Long, Long Time com a excelente presença de Nick Offerman como Bill e Murray Bartlett como Frank é um sopro de amor e dores incondicionais trazidos às ultimas consequências; e se é espetacular ver o personagem Bill se desconstruindo e revelando (ele antes um elemento dessa extrema direita americana) todo seu sentimento por Frank (não podemos deixar de falar da delicadeza da cena dos morangos), soa quase como uma catarse inversa para essa gente entender que viver em comuna é algo completamente diferente do que possam imaginar do comunismo; adoro o momento em que Maria (interpretada por Rutina Wesley) afirma com firmeza ao desconcertado Tommy (Gabriel Luna) sobre a cidade onde vivem: “É isso. Literalmente. Isto é uma comuna. Somos comunistas”.

Isso sem falar nos perigos do dito “cidadão de bem” ocultado na hipocrisia religiosa do bom pastor, que não é mais nada que um lado nada diferente das criaturas contaminadas por fungos; e pelo menos essas não dizem que estão “possuídas pelo espírito santo” para cometer crimes, matar as pessoas de fome ou praticar pedofilia…!

Mas seria o final da temporada a verdadeira redenção de Joel? Aqui ele pratica a ação movida por Ellie, mas isso não é um expurgo de maldade (lembremos que Joel, assim com era Tess, não eram boas pessoas). Nunca conseguiremos vê-lo recuperar 20 anos passados de sua grande perda, e Joel sabe disso. Sua “filhinha” se foi, mas suas responsabilidades com uma jovem (condizente com esse novo mundo) permanecem.

Seria um poder de negação como forma de apaziguar a máquina, cujo motor dá sinais claros de esgotamento?

O minimalista clímax (sem apostar num tiroteio desenfreado para sentirmos o que Joel sente) é mais que acertado pela direção de Ali Abbasi no episodio Look for the Light servindo como uma passagem definitiva de Ellie para o mundo adulto; mas agora de maneira mais delicada e crucial. Não é a perda de uma criança ou jovem sendo morto na frente de seus olhos inexperientes. Isso o mundo apocalíptico iria fazer mais cedo o mais tarde e o fez; era inevitável. Mas outro grande amadurecimento vem de mentiras de quem mais se preocupa com ela naquele mundo. Mesmo que seja para sua proteção isso pode cobrar um preço nessa relação de juras entre pai e filha.

The Last of Us termina sua temporada quase com um anticlímax, mas não menos significativo pelo gancho deixado. A possível segunda temporada trará para quem conhece o jogo uma decisão difícil a ser tomada com relação à adaptação; algo que eu vejo que pode ser arriscadíssima quando falando de audiovisual. Mas independente disso, The Last of Us mostra que pensar na ação interna de seus indivíduos pode ser mais eficiente que seguir à risca um produto para algum público especifico (diga-se de passagem, fora atendidos sim também) e espero que essa visão seja permanente.

printfriendly-pdf-email-button-notext Série: The Last of Us
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Rodrigo Rodrigues

Eu gosto de Cinema e todas suas vertentes! Mas não aceito que tentem rescrever a história ou acharem que Cinema começou nos anos 2000! De resto ainda tentando descobrir o que estou fazendo aqui!
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16 thoughts on “Série: The Last of Us

  1. Uma serie bem bacana sim, com alguns minimos problemas, mas no geral muito acima da media, altamente recomendada e uma das melhores adatpacoes de games que ja vi

    1. discordo um pouco… é boa mas acima disso é exagero… ta no nivel de diversas outras séries por ai… faço um desafio: ache alguém que NAO goste do jogo e veja se essa pessoa tb acha essa série tudo isso! sinceramente, duvido que encontre… ou se encontrar, será uma quantidade muito muito pequena em relação a todos que elogiam tanto a série… é boa, mas nao tao boa assim

  2. a série é excelente, mas tem data de validade ne, depois da segunda temporada, tem como continuar? ou vao encerrar? se continuar, vao inventar coisas nadaver

  3. a série é uma aula de adaptação de games, talvez a melhor ja feita e olha que eu sou fã do primeiro filme de Alone in the Dark heim

  4. essa é simplesmente a melhor adaptacao de um videogame ja feita e jamais sera superada! Pascal é bom em tudo que faz ne nao? sou totalmente cadelinha desse ator

  5. Pra nao dizerem que é mimimi ou que eu sou chato demais, vou reproduzir aqui a critica de uma mulher do Omelete: Recentemente, discutindo um dos episódios de The Last of Us com uma fã do jogo, eu comentei quão absurdo era que um personagem apresentado e aprofundado em um capítulo é morto no episódio seguinte. “É tudo muito aleatório e descartável, amiga”, eu disse. “Sim! TLOU é brutal!” foi a resposta que recebi. Fiquei confusa. O tempo passou e esta não foi a única vez que uma crítica minha à série da HBO foi mal-compreendida. Em outra conversa, eu expliquei que o episódio três não fazia sentido para qualquer pessoa que não conhecesse Frank e Bill, e que The Last of Us não tinha um foco narrativo claro. “Sim! Cada lugar vai ter uma história!” me disseram. Eu retruquei que isso se chama videogame, e a resposta foi “Sim! É um videogame!”. Desisto. Por que eu deveria me importar com aquelas pessoas? Segundo a série, não há motivos, realmente. Além de um veículo e suprimentos que acabam em menos de um episódio para frente, Frank e Bill não me impactaram na jornada e isso até não me incomodaria se a história tivesse me tocado em algum nível. Mas – novamente, e eu preciso reiterar isso porque já sinto o sangue nos seus olhos, leitor – eu nunca tinha ouvido falar de Bill e Frank antes. Eu vi um amor bem estranho se desenvolver de uma narrativa construída rápida e pobremente e entendi que o episódio queria que eu chorasse. Mas… por quem? Por essas pessoas que não conheço e não me tocaram? Para mim, tudo do episódio três foi brega, estranho e zero convincente. E para nada. Retomemos a jornada, esqueçam essas pessoas, não voltaremos a elas. Tanto faz.

  6. Olha vou admitir que gostei da serie mas nao entendo esse clamor todo por ela, nao tem nada demais nao e ainda alguns problemas serios vai, por exemplo, todo mundo que os dois encontram pelo caminho acaba morrendo e a gente nunca mais ve eles entao nao da pra gostar de ninguem mais na serie alem do “pai” e a “filha”

    1. Tb vejo problemas. Indecisa entre o serializado e a narrativa longa, The Last of Us acaba fragmentando demais a aproximação de seus protagonistas. Para remediar a pressa, emprega certo didatismo, pesando a mão em alívios cômicos e deixando rendidos diálogos transpostos quase que literalmente dos jogos — onde encontram mais respiro. Conforme a narrativa avança e passa a referenciar eventos passados como bagagem vasta colhida em uma longa jornada, incorre a ocasional sensação de forçação de barra. Claro que um salto temporal de três meses entre os episódios “Resistir e Sobreviver” e “Parentesco” não ajudam a suavizar essa sensação. Mas o problema é sentido com mais força no season finale “Procure a Luz”, que oscila entre o protocolar e o emocionante, quando deveria ser apenas apoteótico.

  7. achei boa mas tem uns episodios bem fraquinhos falae se nao é verdade, mas principalmente no final vai melhorando bastante e termina legal e fico muito curioso pra ver como vao adaptar o segundo jogo heim

  8. se essa Ellie nao faturar uns premios de melhor atriz vai ser muita sacan%$#@ com a atriz pq ela mandou bem demais fala serio

  9. Serie boa, com episodios muito bons e outros bem fracos. O terceiro episodio que o autor elogiou tanto é absolutamente exagerado, basta ver que a serie toda nao tem nenhum outro episodio que retrate com essa profundidade um romance, e no caso ainda foi de dois personagens totalmente coadjuvantes, ou seja, honestamente falando, uma forçada de barra monstruosa pra cumprir cota, pq nao faz o menor sentido pegar um episodio inteiro de uma temporada curta e perder falando de 2 coadjuvantes com 30 segundos de participação no game e que morrem logo nesse episodio, negar isso é ser totalmente cego quanto a esse erro, e só nega isso quem releva o erro por militar ou ser simpatizante da causa e nem ligo pra isso, meu problema nao é a opcao s e x u a l dos personagens mas sim de perder um episodio inteiro falando do romance de dois coadjuvantes sendo que em nenhum outro episodio isso ocorreu com mais ninguem

    1. vou enfatizar aqui sim a questao da opcao s e x u a l deles pq a serie toda nao tem outra cena de s e x o, so tem essa desses dois, ou seja, é obvio que ali tem militancia sim, mas concordo com vc, o problema nem é esse, eu por exemplo assisto o How to Get Away With Murderer e o que tem de cena de s e x o homo ali é impressionante, mas nao tem problema nenhum, pq tb tem cena hetero, bi, etc, ou seja vc nota claramente que nao é militancia as cenas homo, é historia mesmo, faz todo sentido, diferente do caso de LoU ai onde ta na cara o que fizeram mas tb passa reto, no fim a serie foi legal sim e se prepara que vao dizer que somos preconceituosos e tal

    2. mas pq ele é preconceituoso se o que ele reclamou foi de so ter aquela cena de sequiçu na serie inteira e mais nenhuma se ele ta certo pq realmente nao teve, entao da mesmo pra gente achar que foi militancia sim ue como nao e ele nem criticou nem falou mal de nada que fosse preconceituoso a gente pode discordar, eu achei a serie maravilhosa

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