Crítica: The Batman

Direção: Matt Reeves

Elenco: Robert Pattinson, Zoë Kravitz, Jeffrey Wright, Paul Dano, John Turturro, Andy Serkis, Peter Sarsgaard , Jayme Lawson, Gil Perez-Abraham , Hana Hrzic , Rupert Penry-Jones e Colin Farrell

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Nota 3/5

Dentro da abordagem cinematográfica, Batman há de possuir uma vantagem que seus outros representantes do gênero não possuem: diversidade narrativa. Ao contrário, por exemplo, dos filmes do Homem-Aranha que soam sempre iguais na maior parte do tempo, Batman sempre foi apresentado de maneira particular por vários diretores; seja para o bem o para o mal.

Ajudado pela característica de seu universo soar mais “mundano” por não ter poderes especiais, ele possibilita questões mais abrangentes além de alienígenas invadindo a Terra. Seja a abordagem sombria fantástica de Tim Burton, a extravagância malfadada de Joel Schumacher ou a ambiguidade contemporânea de Christopher Nolan. E até mesmo Zach Snyder com seus BvS (com toda sua polêmica) e Liga da Justiça, jamais diria que não é uma obra com sua visão do diretor e não sendo meras imposições de estúdio.

Mesmo assim, em The Batman o diretor Matt Reeves parece lutar pra não ficar preso às convenções do personagem, ao contrário do feito nos últimos filmes da trilogia do Planeta dos Macacos. Pois se nos filmes dos símios temos um mote de guerra antibalístico inspirado em Apocalipse Now, aqui Reeves se apodera dos conceitos bem vindos do gênero noir, apostando numa história como uma mistura de Seven e Zodíaco, ambos de David Fincher, e também de Jogos Mortais, com pitadas tiradas da trilogia de Nolan. Todavia, é útil que a obra seja usada também como uma crítica por servir como porta-voz do extremismo do homem branco frustrado alimentando irracionalidade, violência armada e ideias apolíticas nas redes sociais como resolução de seus problemas.

O que não é nada de ruim, até porque é infinitamente bem vindo que uma obra desse porte tenha a intenção de entregar uma complexidade maior, mesmo às custas de quase três horas de duração – admito não pesar tanto como imaginava – e ainda que esse tempo cobre um preço ao trazer frágeis interações e possível desprendimento do público em geral. Ou quando não, essas interações são facilmente descartadas na sequência seguinte de uma trama de um serial killer de ocupantes de altos cargos públicos ligados à máfia.

O roteiro de Peter Craig, em conjunto com o próprio Reeves, apresenta um Batman (Pattinson) surgido há apenas dois anos e tendo que lidar com o conhecido trauma pelas mortes dos pais e ao mesmo tempo com um autodescobrimento sobre como a figura do mascarado pode influenciar Gotham City. Pautando boa parte de seus pensamentos em off (como um Noir), o Batman de Pattinson assume aqui uma posição mítica ainda em formação.

O fato de estar trabalhando constantemente em conjunto com Tenente Gordon (Wright, vítima por vezes de um roteiro em que é usado muito para repetir as falas do protagonista para o público), faz Pattinson transformar, por exemplo, seu Bruce Wayne, em alguém sempre aborrecido e áspero a ponto de seu relacionamento com Alfred (Sirkis) inicialmente trazer um conflito paterno não resolvido – por momentos, sua aparência fantasmagórica e cabelo emo quase me reavivaram os pesadelos daquela “saga” de “vampiros” que o lançou ao estrelato.

E se a decisão de modificar a voz ao usar o uniforme do herói – por mais óbvia que deveria ser – para mim é sempre elogiável (assim como feito por Christian Bale), é interessante que a direção decida focar por várias vezes o andar lento do ator como um momento soturno de autocontrole, mas também de imposição na cena de um crime. Aliás, falando em uniforme, que o faz quase invulnerável por tiros de diferentes calibres, traz um elemento curioso através de sua gola alta, referindo-se a um sobretudo de um detetive clássico; e se a utilidade da capa para auxiliá-lo em um voo foi concebida claramente como uma alternativa para não imitar a versão do Batman de Bale, ainda assim soa compatível para o propósito, ainda que cause uma estranheza.

Com relação ao resto do elenco, em termos comparativos, a presença da Selina Kyle de uma segura Zoe Kravitz soa muito mais funcional à trama que a mulher gato de Anne Hathway do Cavaleiro das Trevas, então servindo apenas como um fetiche masculino. Agradável, portanto, que tal relacionamento entre os dois seja tratado pela narrativa de maneira até delicada, como o fato de Batman usar lentes de contato altamente tecnológicas, mas quando sem o uniforme a câmera foca para o olhar de Bruce olhando Selina provavelmente sem as lentes, dando a entender certa pureza em seus sentimentos. Fora que trazendo um irreconhecível Colin Farrell como pinguim numa pesada maquiagem remetendo aos trejeitos de Robert de Niro, o roteiro não evita que o excesso desses personagens e suas ligações se encaixem fluidamente, incluindo aí a sempre bem vinda presença de John Turturro como Carmine Falcone.

Completando tal atmosfera, o Design de Produção apresenta uma Gotham City suja de becos e ruas escurecidos como seria de praxe, mas acrescido de uma chuva constante (criando, assim, uma nada sutil rima com o contexto da sequência final) que acaba influenciando num clima ainda mais pesado, acrescido ainda mais pelo fato da produção trabalhar bem tal sensação da presença de Batman nesses locais. Não sendo a toa que raramente vemos as luzes do dia, somente crepúsculos (ops!) para marcar a passagem de final do dia e inicio de outro. O que torna as decisões da fotografia de Greig Fraser interessantes, pois sempre precisando trabalhar esse cenário ainda mais fechado, acaba “quebrando” levemente com as luzes neon, como por exemplo, como visto no momento em que o personagem de Peter Sarsgaard é atacado e vemos os contornos dos carros por cores fortes ou usando cores sépia dos ambientes esfumaçados.

O que nos traz as concepções de universo particular do protagonista, onde a Batcaverna surge como uma grande oficina amontoada compatível também a proposta mais rústica do filme, ao ponto do Batmóvel ser uma espécie de V8 pulsante recém-saído dos filmes de Mad Max; sendo uma pena que a cenas de perseguição sejam apresentadas de maneira genérica prejudicadas ainda mais pelos planos fechados que não despertam a atenção e acabam prejudicando a mise-en-scene da sequência.

Mas todas essas ligações citadas anteriormente poderiam ter sido mais eficientes se o responsável por tudo fosse algo mais amedrontador que o Charada de Paul Dano. Remetendo ao exemplo visto nos dois últimos filmes da trilogia do Nolan, jamais duvidamos da imprevisibilidade do Coringa de Heath Ledger ou da imposição física de Bane do Tom Hardy e o medo que poderiam causar, diante de suas ameaças “reais”, contudo jamais sentimos algum tipo de incômodo ou medo do Charada, mesmo que Paul Dano seja um ótimo ator. Até porque [Alerta de spoiler!] a resolução da trama soa quase idêntica à resolução de Seven (não, não tem um caixa com “algo” dentro, mas o fato de que mesmo o antagonista aprisionado, existe um “grande plano final”). [Fim do spoiler]

Realização essa vista anteriormente em Cavaleiro das Trevas Ressurge aonde o clímax vai enfraquecendo devido ao excesso que aos poucos vai saturando, e cujo desafio emblemático seja um transformador de luz (!). Mas, como dito anteriormente, mesmo apostando num conceito psicológico de que a figura de Batman pode influenciar a coragem dos cidadãos, Matt Reeves chega a cometer até mesmo os excessos de Nolan como o ponto que me chamou atenção. Se aqui também as perdas refletidas do personagem são vistas através de uma figura infantil, a resolução de Reeves se torna otimista, uma vez que o Batman de Christian Bale era ciente dos sacrifícios que somente Batman poderia suportar; ao contrário daqui na qual o protagonista realmente assume-se como uma luz-guia para o futuro.

Sendo uma pena ainda mais que na conclusão, o diretor deseje inserir um importante personagem, e se a ideia foi copiada ou não de Batman Begins, no mínimo ela soa desnecessária. The Batman tem seus méritos em comparação a diversos outros filmes do gênero, mas me senti com aquela sensação da época de escola de “pode copiar, mas não faz igual” que nunca era cumprido.

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Rodrigo Rodrigues

Amante inexperiente da sétima arte, crítico por insistência, mas cinéfilo acima de tudo. Descobriu, nem tão jovem, diretores como Sergio Leone, Billy Wilder, Fellini, Bergman, Antonioni, Scorsese e sua vida nunca mais foi a mesma! Acredita que a empatia, democracia e o respeito ao próximo é a maior arma contra o fundamentalismo da sociedade retrógrada que estamos vivendo.

18 thoughts on “Crítica: The Batman

  1. Concordo. Há sim uma grande influência de obras sóbrias como Todos os Homens do Presidente (1976) e Seven – Os Sete Crimes Capitais (1995), mas ela convive em harmonia com uma aventura clássica de super-heróis aos moldes do primeiro Batman (1989), por exemplo. Mesmo puxando pro realismo, não é algo tão realista quanto os filmes do Nolan. Eu vi também uma homenagem ao The Bat (1926), o filme mudo que inspirou Bob Kane a criar o personagem.

  2. vamos aos fatos: filme bem feito, bem dirigido, nao há o que falar… ator bom mas nao é visualmente o Bruce Wayne nunca, o Charada ficou bacana como vilao e o Coringa no final ficou horrivel e nadaver, Mulher Gato otima pelo menos tem papel na historia, Gordon um manezao parece um estagiario de policial, Pinguim promete promete e nao entrega absolutamente nada e so serve se tiver continuacao e ele assumiu os negocios do Falcone, historia um pouco copiada do Batman 3 do Nolan com todo mundo se reunindo num local pq a cidade ta implodindo

  3. nao sei pq galera ve um filme policial meio escuro e com fotografia de contraluz e ja faz ligação com Seven… como se só Seven tivesse esse estilo visual, fala serio pessoal, e Zodiaco??? So pq é um filme de investigacao??? nadaver! de resto, bom filme, mas cai na vala comum, esquecivel e generico… o mesmo defeito de varios dos filmes da Marvel (sim, sei que os da Marvel sao meio comedinhas e esse nao, mas vc me entendeu ne parceiro), daqui um tempo ninguem liga pra esse filme e vao sempre lembrar dos Batman do Nolan

  4. ao contrario da maioria nao vi problema na duração do filme, por mim seria ate mais longo… qt mais filme recebo pelo preço altissimo que pago no cinema, melhor… o problema pra mim é o Pattinson mesmo: bom ator, mas nao é e nunca será um Bruce Wayne fidedigno às HQs

  5. o filme é bem legal eu me diverti vendo ele, pessoal ta critico demais… concordo que nao precisava ser tao longo

  6. ainda nao assisti, mas sinceramente to desanimada com mais um filme do Batman, mais um filme de origem, mais um filme de heroi da DC, que tem e nao tem conexao com os demais (na Marvel acho que o sentimento de que tudo ali se interconecta me agrada mais, da um sentimento de estar vendo uma historia que pertence a uma historia maior)

  7. um filme interessante, uma pegada mais noir mesmo, mais investigativa que super heroica, eu achei bacana, mas realmente o filme é longo e em certos momentos cansativo

  8. bom filme, tirando mesmo a duração que é exagerada, no mais gostei, e cada vez mais vemos como o filme do Coringa do Phoenix é beeeem ruim

  9. boa critica, bem ponderada, assim que eu gosto, cansei de site de fanboy que so elogia filme de heroi da editora favorita

  10. Robert Pattinson incorpora muito bem o personagem e suas dores. Aliás, estamos acompanhando ainda os primeiros movimentos desse herói. A postura corporal de descrença quando Bruce Wayne e de imponência quando Batman, distinguem bem as duas figuras interpretadas por uma só. Chegando a confundir até mesmo o espectador. E, assim, justificando o porquê de nunca desvendarem quem é o Batman. As cenas de ação convencem e mostram o bom preparo de combate, mesmo que iniciais. São mais agressivos do que pensados.

  11. Pois é, ao contrário do que disseram lá no grupo do Facebook, digo que o filme tem quase 3 horas de duração, mas já dá para adiantar duas coisas: não cansa, pois são muitas sequências de ação de tirar o fôlego e possui uma “cena” pós-créditos, que não dá bem para chamar assim. De fato, o filme manda tão bem na ação que faz medo sair para ir ao banheiro e perder detalhes importantes, pois a todo momento surgem novos desdobramentos nas investigações e nas ações do vilão que se você perde, quando volta pode ficar confuso. Aliás, como já é de costume os vilões do Batman são quem mais se destacam aqui, é o caso de Paul Dano como o Charada que é uma grata surpresa como vilão e tem uma excelente entrega ao personagem; e Colin Farrell como o Pinguim que está irreconhecível no papel do vilão caricato. Podem assistir sem medo que é um ótimo filme de super heróis. Merecia nota mais alta.

  12. eu gostei, achei bacana finalmente vermos no cinema o Batman detetive igual nos quadrinhos, e nao vi problemas em ser parecido com Seven ou Zodiaco, alias, nem acho parecido, mesmo tendo uma ou outra semelhança

    1. O tom investigativo é uma consequência do próprio vilão, o Charada (Paul Dano), que surge numa versão neofascista virtual que cria um tom político e conversa bastante com os nossos tempos – assim como o “Coringa” de 2019 conversava.

    2. Sebastopol
      Bem vindo
      Sem problema algum. Acho que o filme tem pontos positivos na adaptação do personagem e os fãs saíram satisfeitos. E se gostou , fico feliz que tenha gostado.
      E não tem problema nenhum uma obra copiar a outra, mas se isso se tornar algo que pauta a obra por completo é um problema no roteiro que conseguiu dar algo novo e apostou no mais obvio ( o que não é demérito , mas aqui me incomodou um pouco)
      Abraço

    1. leo,
      Bem vindo.
      Não, é um bom filme, mas não é melhor que a concepção do filmes dos Nolan.
      obrigado

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